A família e o medo de perdê-la.
O filósofo Luc Ferry, escreveu recentemente no seu livro, “Famílias, Amo Vocês”, referindo que “a família é única coisa que resta de sagrado no mundo”, Referiu ainda, que “os únicos seres pelos quais arriscaríamos a vida no mundo de hoje são aqueles próximos de nós: a família, os amigos e, em numero bem menor, pessoas mais distante que nos causam grande comoção”,
Mais adiante em discorrer sobre os dilemas da sociedade contemporânea, e sem, aparentemente, relacioná-lo ao tema central, ele fala sobre o medo. “Nós, ocidentais, temos medo de tudo (...) todo ano se acrescenta um novo medo aos anteriores”, diz.
Nada é por acaso que os dois temas – família e medo – foram tão enfatizados, porquanto, entendo, intimamente ligados. Só se tem medo de perder aquilo que nos é mais caro, o que nos é valioso. Posso testemunhar que, depois da paternidade, passei a ser muito mais cauteloso e cuidadoso do que antes de gerar aqueles que considero os meus maiores bens, os meus filhos.
E seguindo o pensamento do filósofo, vou além. Acho que o conceito de família se ampliou, abrangendo não só os que se unem pela consangüinidade, mas também peã afinidade e amizade.
No caso dos meus filhos e de muitos do seu grupo, que são de uma geração em que o conceito tradicional de família se modificou, dando lugar, em muitos casos, a lares de pais separados, os amigos se tornaram a sua segunda família. Porque se identificam, eles se unem.
Em Luc Ferry, e o medo de perder um ente querido, concluo que não podemos mais viver sob o medo da insegurança, que assombra a nossa família, qualquer que seja a estrutura e o formato que ela tenha. Ela não pode viver constantemente sob a ameaça da violência urbana e humana.
31 de out. de 2008
Ego O que devemos.
Crimes de ego envolvimento.
“Conhecer a distinção conceitual faz diferença no momento de tentar dissuadir o agente”.
Já na antiguidade – a começar por Platão – via-se o crime como sintoma de uma doença cuja causa seria tríplice: as paixões (inveja, mentira, ciúmes, ambição, cólera), a procura do prazer e a ignorância.
Um pouco adiante nos tempos, dentro da criminologia psicanalítica, encontramos Freud dizendo que o homem é, por natureza, um ser a-social, concebendo a criança como um perverso polimórfico que Stekel denominava de criminoso universal e que se extrai das teorias psicodinâmicas que tentam explicar o crime.
Estas teorias vêem no processo psicótico do delinqüente que se imagina maltratado, perseguido, agredido e por isso em uma situação de “legitima defesa” contra determinada pessoa - a vitima – e situações que nenhum vínculo têm com suas fantasias e perturbações. Mas projeta o infrator sobre a vítima seus próprios instintos recalcados, seus motivos inconscientes.
É nesse patamar que se viu uma prática desastrosa e um crime serem perpetrados contra vítimas indefesas. E é a questão da vitima, teórica e concretamente considerada, que poderia fazer diferença no desfecho.
É que não se considerou que crimes há de grande ego involvimet. E que pressupõem eles uma relação de grande proximidade e conflitualidade entre delinqüente e vítima ou o objeto do crime em geral. Conceito tais não podem ser perdidos de vista por quem lida com o crime, seja o policial, o Ministério Público ou o Juiz. Sem a noção deste aspecto, perde-se de vista o padrão de conduta que, se conhecido, se pode prever o que poderá vir a fazer o agente criminoso.
É um conceito que corresponde sensivelmente ao de crimes de vitimas imposta (pela essência psicótica) que são, tendencialmente, os crimes violentos contra pessoas. Inversamente. Já os crimes contra o patrimônio são, por principio, crimes de vítima escolhida. Neste não há qualquer vínculo anterior entre vítima e agente, em principio.
Conhecer a distinção conceitual faz a diferença no momento de tentar dissuadir o agente, proteger a vítima e no de denunciá-lo ao juiz e para este ao julgar o caso. Ao agente que furta, em principio, não é a pessoa da vítima importante, mas sim bem que objetiva subtrair, ao contrário dos casos de vítima imposta, pois, nestes casos, é esta que importa.
Assim, é equivoco compreender e tratar um agente mobilizado por grande envolvimento (ego envolvimento, com vítima imposta) como se estivesse frente a caso de vítima escolhida. E isso porque e, caso de seqüestro, por exemplo, se o agente foge e seqüestra (vítima escolhida) o faz para se proteger. Ele precisa manter a vítima para o sucesso do seu proceder. Já no caso de seqüestro com vítima imposta, o enfoque e o proceder devem ser de acordo com o que mobiliza emocionalmente o agente para a prática delituosa porque assim ele age para causar sofrimento, dano à vítima. O resultado, então, pode ser previsto.
“Conhecer a distinção conceitual faz diferença no momento de tentar dissuadir o agente”.
Já na antiguidade – a começar por Platão – via-se o crime como sintoma de uma doença cuja causa seria tríplice: as paixões (inveja, mentira, ciúmes, ambição, cólera), a procura do prazer e a ignorância.
Um pouco adiante nos tempos, dentro da criminologia psicanalítica, encontramos Freud dizendo que o homem é, por natureza, um ser a-social, concebendo a criança como um perverso polimórfico que Stekel denominava de criminoso universal e que se extrai das teorias psicodinâmicas que tentam explicar o crime.
Estas teorias vêem no processo psicótico do delinqüente que se imagina maltratado, perseguido, agredido e por isso em uma situação de “legitima defesa” contra determinada pessoa - a vitima – e situações que nenhum vínculo têm com suas fantasias e perturbações. Mas projeta o infrator sobre a vítima seus próprios instintos recalcados, seus motivos inconscientes.
É nesse patamar que se viu uma prática desastrosa e um crime serem perpetrados contra vítimas indefesas. E é a questão da vitima, teórica e concretamente considerada, que poderia fazer diferença no desfecho.
É que não se considerou que crimes há de grande ego involvimet. E que pressupõem eles uma relação de grande proximidade e conflitualidade entre delinqüente e vítima ou o objeto do crime em geral. Conceito tais não podem ser perdidos de vista por quem lida com o crime, seja o policial, o Ministério Público ou o Juiz. Sem a noção deste aspecto, perde-se de vista o padrão de conduta que, se conhecido, se pode prever o que poderá vir a fazer o agente criminoso.
É um conceito que corresponde sensivelmente ao de crimes de vitimas imposta (pela essência psicótica) que são, tendencialmente, os crimes violentos contra pessoas. Inversamente. Já os crimes contra o patrimônio são, por principio, crimes de vítima escolhida. Neste não há qualquer vínculo anterior entre vítima e agente, em principio.
Conhecer a distinção conceitual faz a diferença no momento de tentar dissuadir o agente, proteger a vítima e no de denunciá-lo ao juiz e para este ao julgar o caso. Ao agente que furta, em principio, não é a pessoa da vítima importante, mas sim bem que objetiva subtrair, ao contrário dos casos de vítima imposta, pois, nestes casos, é esta que importa.
Assim, é equivoco compreender e tratar um agente mobilizado por grande envolvimento (ego envolvimento, com vítima imposta) como se estivesse frente a caso de vítima escolhida. E isso porque e, caso de seqüestro, por exemplo, se o agente foge e seqüestra (vítima escolhida) o faz para se proteger. Ele precisa manter a vítima para o sucesso do seu proceder. Já no caso de seqüestro com vítima imposta, o enfoque e o proceder devem ser de acordo com o que mobiliza emocionalmente o agente para a prática delituosa porque assim ele age para causar sofrimento, dano à vítima. O resultado, então, pode ser previsto.
24 de out. de 2008
Sentido sem Sentido.
Nossos Sentidos sem sentidos.
Para Caroline Mentz:
Sentidos, nossos sentidos perderam seu sentido. Com tanta gente em volta e com toda tecnologia disponível, eis que retornamos a tempos primevos: perambulamos sozinhos na caverna. A caverna da redoma que nos faz cativos da agenda e, atossicados pela pressa do relógio, atiça a compulsão pelo isolamento na ânsia da disputa pelo pódio do êxito pessoal que nos separa das pessoas e impede a percepção do abismo no entorno. No mecânico consumo da vida sequer notamos que é a vida que nos consome. E dessa maneira transfiguramo-nos em artistas autistas.
Sim, tornamo-nos cegos ao não avistar e tampouco reconhecer o mundo ao lado. Em algum lugar sepultamos a sensibilidade de apreciar e de se deslumbrar frente às telas buriladas pelo esplendor do amanhecer ou pela suavidade do pôr-do-sol ou ainda pela magia da floração dos jacarandás sob a cadência do canto mavioso das aves. A cegueira, agregada ao nosso estoicismo, é conseqüência direta da hipnose forjada pelos artificiais encantos das telas da TV e imagens on-line.
Estamos surdos pelos decibéis da babel urbana adicionados ao paradoxo da nudez instaurada quando substituímos a franqueza do diálogo vis-à-vis pela frieza do bate-papo distante via internet e pelas mensagens cifradas do celular.
O paladar já nem percebe a qualidade dos sabores de outrora. Os atuais provocam náuseas com as informações que nos empanturram sem possibilidade de digeri-las e sem nos alimentar: ao revés, nos deixam mais famintos, mais solitários, menos solidários.
O olfato há muito não degusta o perfume da madressilva ou a fragrância dos jasmins ou o cheiro da terra molhada ou do pasto orvalhado porque impregnou-se do odor da degradação, nela compreendida a inhaca do indecência.
E o tato do contato com o afago, do aperto de mão, do abraço estreito, do calor do beijo, faz-se insensível ante o efeito mal-feito do anestésico aplicado pelo punho cerrado sempre a postos para o golpe (em toda Amplidão que a palavra possa Expressar).
Nessa irrealidade real é pueril entender a vigente adoração pelos valores sem-valor. O apetite da riqueza material nos conduziu à indigência existencial. Daí essa idolatria por nádegas fornidas, pernas roliças, bustos avantajados, corpos sarados. Não por outra razão que assim vamos massificados, coisificados, robotizados, bigbrotherizados e relegados ao papel inferior de artífices da cultura do “eco oco”. O produto desse deserto de valores vem com a safra de frustrações pessoais que a seu turno conduzem a crises de ordem vivencial-sentimental em forma de ansiedade, depressão, irritação, pensamentos obsessivos e neuroses quase coletivas.
A diferença só ocorrerá se afastarmos nossa indiferença. Quando é repetida – com procedência se, dividas – a obrigatoriedade de maior incentivo à saúde e a educação, faz-se imperioso educar mais o coração e proporcionar mais saúde à alma em homenagem à própria condição humana. Urge redescobrir-se a visão, a sinfonia, o tempero, o aroma e as sensações que dão o tom à vida. É indispensável reencontrar as alegrias simples, como a do amor, desenvolver o dom do perdão, recuperar a solidariedade, superar o individualismo, realimentar o senso comunitário. Em resumo, e apesar do risco de sermos considerado démodé, necessitamos voltar a ser mais românticos.
Rogando desculpas à ousadia, impões-se discordar de Sartre quando prega que a vida é um absurdo. Afastemos portanto nossa letargia a fim de reativar e energizar os sentidos: estes devem retornar à função de dar sentido à vida. Pois a vida tem sentido sim.
Para Caroline Mentz:
Sentidos, nossos sentidos perderam seu sentido. Com tanta gente em volta e com toda tecnologia disponível, eis que retornamos a tempos primevos: perambulamos sozinhos na caverna. A caverna da redoma que nos faz cativos da agenda e, atossicados pela pressa do relógio, atiça a compulsão pelo isolamento na ânsia da disputa pelo pódio do êxito pessoal que nos separa das pessoas e impede a percepção do abismo no entorno. No mecânico consumo da vida sequer notamos que é a vida que nos consome. E dessa maneira transfiguramo-nos em artistas autistas.
Sim, tornamo-nos cegos ao não avistar e tampouco reconhecer o mundo ao lado. Em algum lugar sepultamos a sensibilidade de apreciar e de se deslumbrar frente às telas buriladas pelo esplendor do amanhecer ou pela suavidade do pôr-do-sol ou ainda pela magia da floração dos jacarandás sob a cadência do canto mavioso das aves. A cegueira, agregada ao nosso estoicismo, é conseqüência direta da hipnose forjada pelos artificiais encantos das telas da TV e imagens on-line.
Estamos surdos pelos decibéis da babel urbana adicionados ao paradoxo da nudez instaurada quando substituímos a franqueza do diálogo vis-à-vis pela frieza do bate-papo distante via internet e pelas mensagens cifradas do celular.
O paladar já nem percebe a qualidade dos sabores de outrora. Os atuais provocam náuseas com as informações que nos empanturram sem possibilidade de digeri-las e sem nos alimentar: ao revés, nos deixam mais famintos, mais solitários, menos solidários.
O olfato há muito não degusta o perfume da madressilva ou a fragrância dos jasmins ou o cheiro da terra molhada ou do pasto orvalhado porque impregnou-se do odor da degradação, nela compreendida a inhaca do indecência.
E o tato do contato com o afago, do aperto de mão, do abraço estreito, do calor do beijo, faz-se insensível ante o efeito mal-feito do anestésico aplicado pelo punho cerrado sempre a postos para o golpe (em toda Amplidão que a palavra possa Expressar).
Nessa irrealidade real é pueril entender a vigente adoração pelos valores sem-valor. O apetite da riqueza material nos conduziu à indigência existencial. Daí essa idolatria por nádegas fornidas, pernas roliças, bustos avantajados, corpos sarados. Não por outra razão que assim vamos massificados, coisificados, robotizados, bigbrotherizados e relegados ao papel inferior de artífices da cultura do “eco oco”. O produto desse deserto de valores vem com a safra de frustrações pessoais que a seu turno conduzem a crises de ordem vivencial-sentimental em forma de ansiedade, depressão, irritação, pensamentos obsessivos e neuroses quase coletivas.
A diferença só ocorrerá se afastarmos nossa indiferença. Quando é repetida – com procedência se, dividas – a obrigatoriedade de maior incentivo à saúde e a educação, faz-se imperioso educar mais o coração e proporcionar mais saúde à alma em homenagem à própria condição humana. Urge redescobrir-se a visão, a sinfonia, o tempero, o aroma e as sensações que dão o tom à vida. É indispensável reencontrar as alegrias simples, como a do amor, desenvolver o dom do perdão, recuperar a solidariedade, superar o individualismo, realimentar o senso comunitário. Em resumo, e apesar do risco de sermos considerado démodé, necessitamos voltar a ser mais românticos.
Rogando desculpas à ousadia, impões-se discordar de Sartre quando prega que a vida é um absurdo. Afastemos portanto nossa letargia a fim de reativar e energizar os sentidos: estes devem retornar à função de dar sentido à vida. Pois a vida tem sentido sim.
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