A crise no casamento.
Para abordar as formas de conjugalidade contemporâneas é imprescindível entendermos o que vem ocorrendo com o casamento nas últimas décadas. Causa ou efeitos do panorama atual? O que sabemos é que a instituição do casamento é cada vez mais questionada, especialmente pelos mais jovens, o que pode ser encarado como uma crise, ou simplesmente como um processo de transformações e adaptações que naturalmente se fazem necessárias numa época em que as mudanças são cada vez mais freqüentes e velozes.
Em todo o mundo a família e a instituição casamento vêm passando por momentos difíceis. Quando pensamos em família, logo nos vêm à cabeça aquele modelo tradicional que inclui mãe e pai casados e filhos. No entanto, as uniões conjugais têm ganhado formas cada vez mais heterogêneas, podendo ser adaptadas de acordo com os interesses do casal, pois a satisfação de cada um dos cônjuges é essencial nas relações modernas.
Ao estudar a crise no casamento contemporâneo, Bernardo Jablonski (1991) destaca e analisa o que seriam as principais razões para tal situação. Dentre elas estariam os processos de modernização e urbanização, que levariam a uma perda da visão coletiva e à ênfase nos interesses individuais e na intimidade, permitindo uma maior separação entre os membros da família e também o isolamento dos mais velhos. O autor denomina “fam-ilhas” as estruturas familiares resultantes dos processos citados. Assim, a família atual é caracterizada como uma ilha: cada vez menor mais distante da família extensa, mais centrada em si. Também contribui para isso a gradual perda de funções da família. Como trabalho, cuidados médicos, educação, asilo, funções estas que foram entregues a instâncias sociais. A mulher, que exercia a maioria destas funções, viu sua esfera de ação se restringida ao âmbito da afetividade ou a “funções psicológicas”, e estas por sua vez, são desvalorizadas em relação ao papel do homem, que trabalha para prover a família.
As famílias modernas possuem, portanto, grande função emocional. A perda das funções econômicas da família permitiu maior independência do indivíduo, e passa a poder viver sozinho, o que era impensáveis tempos atrás. Com o advento da modernidade, a família perde sua função histórica básica: a de garantir a nossa sobrevivência. A questão da afetividade tornou-se, então fundamental. O afeto que era distribuído pela família extensa passou a concentra-se em poucos membros, que ganharam grande importância. Os filhos hoje têm uma importância emocional nunca tida antes. Mudou a maneira de enxergar as crianças, que passaram de adultos em ‘miniatura’ a seres singulares e possuidores de atributos admiráveis, o que trouxe como conseqüência uma sobrecarga emocional. A diminuição das taxas de mortalidade infantil também permitiu maior ligação emocional com as crianças, já que se tornou mais remota a possibilidade do envovilmento ser interrompido por uma morte precoce. Com a afetividade em foco, o amor ganhou importância central nas relações familiares, criando uma interdependência entre os membros, no sentido de terem de suprir todas as necessidades afetivas uns dos outros. Para a família, ficou difícil então atender a todas as expectativas.
Outra razão para a situação de crise seria a idealização do amor. Jablonski (1991) destaca o quão recente é a união entre amor e casamento. Até aproximadamente o século XVII os casamento não eram realizados por amor, mas sim por interesses econômicos.
Outro fator motivador da crise seria a longevidade. No século XX as taxas de mortalidade caíram surpreendentemente, aumentando a expectativa de vida, de modo que os casamentos tendem a durar muito mais, ao menos teoricamente. Na prática, como veremos ao longo deste trabalho, a modernidade trouxe a possibilidade de encurtar casamentos não tão bem sucedidos com certas facilidades, menos culpa e maior aceitação social. Hoje, o divórcio encerra uniões da mesma forma que a morte o fazia há tempos atrás. Os casamentos duravam até a morte numa época em que a expectativa de vida era bem menor. Soma-se a isso o fato de as famílias estarem mais nucleares, o que faz com que os cônjuges voltem a atenção uns para os outros, pois já não há muitos filhos. E esses poucos crescem e saem de casa bem antes do falecimento dos seus pais, e quando isso acorre, homem e mulher voltam a perceber-se depois de muitos anos devotados às crianças, ao trabalho e a interesses pessoais. Daí surgem os conflitos, pois os cônjuges precisam lidar mais diretamente com as diferenças individuais e, na maioria das vezes, não estão preparados para isso.
As transformações acorridas na esfera da sexualidade também afetaram profundamente as relações amorosas, especialmente no que diz respeito ao papel da mulher neste contexto. Assim como a liberação sexual, a emancipação feminina tem levado a uma demanda de maior igualdade entre homens e mulheres. No entanto, apesar de a mulher estar saindo da posição passiva, ela ainda não condiz com aquilo que a mídia divulga, estando no meio do caminho, o que, segundo o autor é fator que precipita a crise. Sabemos que a frustração aumenta à medida que ocorre mais próxima do alvo. Fazendo uma analogia à questão da emancipação feminina, ele conside que o grau de insatisfação das mulheres era menor quando elas eram mais passivas com relação ao casamento. Quanto maior a expectativa, maior a frustração. E a frustração das mulheres com relação ao casamento estaria ocorrendo devido aos avanços relacionados à emancipação feminina, pela sobrecarga trazida pela dupla jornada, entre outras coisas, elas nem sempre conseguem corresponder a todas as expectativas que a sociedade lhes impõe, sentindo-se frustradas por não alcançarem aquele ideal de mulher difundido pelos meios de comunicação.
São ainda as mulheres as mais afetadas pelas conseqüências da revolução sexual da década de 60. O advento da pílula permitiu a separação entre sexo e procriação, dando a elas a possibilidade de desfrutar de certa liberdade até então exclusiva dos homens, o que também pode ter contribuído para a diminuição do número de mulheres casando-se virgens. O sexo vem se tornando mais igualitário, com uma maior preocupação com o prazer da mulher, e a virgindade feminina também não é mais valorizada e guardada como antigamente, sendo considerada hoje uma opção. O autor ressalta, ainda, que hoje elas são as que mais tomam a iniciativa do divórcio, apresentando maior insatisfação com o casamento.
A posição mais independente e ativa da mulher trouxe conseqüências também para a questão da fidelidade. Podemos dizer que ainda hoje, no que diz respeito às diferenças de gênero, vigora a chamada “dupla moral”: meninos e meninas recebem educação diferente com relação à sexualidade. Elas são orientadas de maneira mais conservadora. Apesar disso, a emancipação feminina permitiu que a mulher contestasse algo que sempre foi tido como “natural”, que é a infidelidade masculina. E ela não só contesta como também reivindica seus direitos, o que tem provocado muita polêmica.
Jablonski (1991) chama a atenção para a contradição entre a concepção de casamento monogâmico indissolúvel e a liberação sexual, que faz da monogamia um compromisso difícil de ser cumprido para muitas pessoas. O adultério aparece então como uma das soluções encontradas para lidar com um problema trazido pela longevidade: os casamentos muito duradouros. Torna-se difícil ter de se contentar com um único parceiro durante muito tempo, enquanto vivemos numa busca incessante por novidades, sob a influência de uma época marcada por rápidas transformações e imensa descartabilidade. Sabe-se que ainda hoje a infidelidade masculina é mais aceita que a feminina, porém a liberação e a emancipação feminina estão trazendo novas prerrogativas a esse respeito. Apesar de estudos mostrarem que as mulheres, quando se envolvem em relação extra maritais, o fazem dentro de um contexto mais afetivo, percebe-se que elas estão entrando com mais facilidade em relação de curta duração. Podemos verificar então que as mudanças no papel da mulher produziram grande impacto sobre o casamento, de modo que o autor considera a emancipação feminina um dos fatores relacionados à crise.
Finalmente, Jablonski (op.cit) destaca o papel da mídia nesta problemática. Hoje a televisão consegue atingir a maioria da população e por um tempo considerável, criando inclusive padrões comportamentais. A questão do casamento tem chamado a atenção da imprensa, mas apesar de prestar serviços importantes, a mídia às vezes divulga e generalizadas características de comportamento de um povo, mesmo que a informação não esteja correta a tendência é que tais características sirvam de modelo para todos os demais.
Em função da insegurança trazida por uma época de transições bruscas, as pessoas tendem a conformar-se com aquilo que lhes é transmitido. As respostas que antes vinham da família e da Igreja, hoje chegam através dos meios de comunicação. A TV mostra especialistas que trazem ensinamentos tanto para os pais quanto para os filhos, norteando comportamentos, expectativas, educação. Mas a mídia não cria inverdades sem algum fundamento, e mesmo nestes casos a divulgação maciça acaba por tornar-se realidade. O aumento do número de divórcios e sua divulgação fazem com que cresça suas aceitações, e assim aumentem ainda mais, pois o medo da desaprovação social que inibia os divórcios não existe mais.
Mas o intenso processo de modernização que a sociedade vem sofrendo, e que atinge várias áreas, mas não todas, esbarram nas dificuldades que os indivíduos encontram em acompanhar tantas mudanças. Por mais que nos consideremos “modernos” todos nós temos uma “bagagem”, uma história de vida que não pode ser deixada para trás tão facilmente e substituída por novos valores de uma hora para outra.
O impacto dessas transformações recua também sobre a família e a subjetividade, causando dificuldade e angústia. As mudanças nos modelos e idéias de família não são assimiláveis facilmente, o que torna a adaptação ao novo um tanto quanto conflituosa.
A mudança social no âmbito da subjetividade é a que ocorre com mais dificuldade. As pessoas inseridas neste processo precisam estar sempre solucionando as dificuldades deles decorrentes, e assim acabam se protegendo atrás de rótulos como “modernas” ou “arcaicas”, rótulos estes que encobrem a complexidade do processo. A esse respeito, Figueira (1987) destaca o quanto as mudanças rápidas são superficiais, de forma que “o novo e o moderno convivem com o arcaico e o antiquado”. O autor distingue dois tipos de família: o primeiro é definido como hierárquico e tradicional, e prevalecia nos setores médios da sociedade na década de 50. Esta família é relativamente organizada, “mapeada”. Nela as diferenças entre homem e mulher são muito bem demarcadas, com o homem ocupando uma posição superior em relação à mulher e aos filhos, havendo ainda um duplo padrão de moralidade. Da década de 50 em diante família sofreu um processo de modernização impulsionado por uma idéia de família igualitária, que questionava a hierarquia, a desigualdade e a diferença de privilégios. Nesta, as diferenças pessoais são mais relevantes que as sexuais, etárias ou posicionais, e as noções de certo e errado ganham flexibilidade. No entanto estes dois tipos bem definidos de família são muito mais idéias do que reais, servindo como modelo a ser seguido ou evitado.
Figueira (op.cit) ressalta que o processo de modernização não se dá de maneira linear, o que torna a realidade da família modernizada ambígua. A emergência de um ideal igualitário traz em seu bojo personagens heróicos e glamorosos que são constantemente substituídos como possibilidades de identificação para aqueles que desejam se desligar de suas identidades tradicionais. A velocidade das mudanças é tanta que novas identidade se sobrepõem às antigas sem que haja alteração substancial.
O processo de modernização também estaria produzindo, segundo o autor do livro, um enfraquecimento de fronteiras entre categorias diferentes, com a redefinição das mesmas através de uma idéia de ligação que trás uma nova identificação que lhes é comum. Por exemplo, através desta idéia, homens e mulheres, adultos e crianças são percebidos como indivíduos, minimizando suas diferenças intrínsecas. Tudo isso seria resultado de uma ideologia igualitarista que tende a diluir os marcadores das diferenças intrínsecas como sexo, idade ou posição social. As diferenças resultam cada vez mais de escolhas individuais dentro de um conjunto de possibilidades previamente definido, onde as manifestações hierárquicas são inibidas. No entanto, esta inibição se dá no plano do discurso e não necessariamente significa a abolição de certas idéias. Um exemplo disso é o fato de algumas maneiras de se falar de homossexuais e negros estarem sendo inibidas, sem que, no entanto, isso signifique que o preconceito esteja sendo erradicado.
Assim, a difusão da psicanálise teria papel importante neste processo, pois além de orientar as pessoas afetadas pela modernização acelerada, reforça a lógica do igualitarismo, da dissolução de fronteiras ou da construção delas. Os conceitos psicanalíticos são então considerados como universais e democratizantes, pois unem seres tidos como intrinsecamente diferentes em torno de uma só categoria: indivíduo.
Não se pode negar a relação existente entre as transformações sociais e as transformações subjetivas. Figueira (op.cit) chama a atenção para o fato de que as mudanças são tão rápidas que, ao contrário do que parece, o “moderno” não substitui o “arcaico”: eles coexistem. Mesmo que esteja invisível, o “arcaico” consegue fazer oposição ao “moderno”, que representa aquilo que desejamos, mas nem sempre conseguimos ser.
O autor chama de desmapeamento a coexistência de mapas ideais, identidades e normas contraditórias nos sujeitos: “O ‘desmapeamento’ não é perda ou simples ausência de ‘mapas’ para orientação, mas sem a existência de mapas diferentes e contraditórios inscritos em níveis diferentes e relativamente dissociados dentro do sujeito” (p 22). Além de gerar certa desorientação e conflitos de identidade, o desmapeamento também provocou tentativas de solução. Uma delas foi o aumento da demanda de psicoterapia e psicanálise em virtude das dificuldades trazidas por mudanças aceleradas. A segunda é definida pelo autor como “modernização reativa” ou falsa modernização. Para explicá-la o autor recorre à definição de dois tipos de regra: de primeiro grau e de segundo grau. A primeira requer uma autoridade exterior ao sujeito e define o conteúdo do comportamento, sendo fundamental para o ideal de família hierárquica, com noções claras de certo e errado. A segunda emana do exterior do sujeito, mas não define o seu comportamento e sim o convida a pensar e decidir o que fazer, diminuindo assim a possibilidade de rebeldia e confronto. Esta regra dá ênfase ao sujeito e não ao “código” (Foucault, 1984, in Figueira, 1987), sendo assim fundamental para o ideal de família igualitário. Há ainda um terceiro tipo de regra que consiste na regra de primeiro grau com conteúdo modernizado, ou seja, muda o conteúdo (de arcaico para moderno) mas o mecanismo continua o mesmo. Na modernização reativa o conteúdo “moderno” como reação ao conteúdo “arcaico” (este permanece inconscientemente), numa mudança apenas de conteúdos, onde o imaginário moral continua o mesmo, podendo sempre se manifestar, o que exige uma reatividade ainda maior. Deste modo, a verdadeira modernização seria aquela que transformaria, no interior do sujeito, regras do primeiro grau em regras do segundo, constituindo um processo de individualização.
Assim, diante da velocidade das transformações e da inércia da subjetividade o sujeito não consegue modernizar profundamente o seu funcionamento, limitando-se a atualizar o conteúdo do comportamento através da modernização reativa.
De acordo com o autor, como solução para o desmapeamento a modernização reativa tem uma ação positiva (produtiva) e uma negativa (supressora): a positiva leva os sujeitos à ilusão de que são apenas o que desejam ser; a negativa leva à supressão do arcaico, daquilo que não se deseja ser; a negativa leva à supressão do arcaico, daquilo que não se deseja ser.
Diante disso o autor conclui que não há uma “nova família brasileira”, mas sim uma família onde valores modernos convivem com valores arcaicos. Sendo assim, quanto mais harmoniosa for esta convivência, mas satisfatória será a relação conjugal e ou familiar.
Chaves (1997) afirma que existe, sim, no Brasil hoje uma nova família, mas esta tem com ponto de referência básica a família tradicional. Segundo ela, o processo de transformação que o modelo familiar tradicional vem sofrendo não significa que ele tenha se tornado inoperante ou falecido, o que de certa forma ratifica a teoria de Figueira.
Podemos perceber então que são muitas as razões para as dificuldades que o casamento vem enfrentando. E “enfrentar” é a palavra-chave, pois apesar de tudo as pessoas ainda optam em sua maioria por dividir sua maioria por dividir suas vidas com alguém, embora muitas destas uniões tenham adquirido formas alternativas. Como num movimento de auto preservação do casamento “persiste” promovendo as adaptações necessárias para sobreviver nas condições atuais.
Att:
Lúcio Silveira
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